Blog de Formação

A lógica do descarte, que parece ser direcionada apenas às “coisas” é, hoje, o jeito pelo qual as pessoas se tratam e, o pior: o jeito pelo qual o mundo espera que você (!) trate as pessoas. 

Amores líquidos¹, amizades efêmeras, contatos rápidos, conversas superficiais, risadas forçadas, interações pré-programadas... Trejeitos robóticos que inundam nosso cotidiano e fazem o silêncio do quarto escuro lembrar da solidão que é estar num mundo em que a sua essência não é tão relevante assim. Não à toa cresce exponencialmente o número de jovens que se fecham às próprias dificuldades e, desse abismo, não enxergam o horizonte florido que, com certeza, existe. 

É difícil, mesmo. Num panorama como o atual, em que pessoas não são mais que números, é simples acreditar estar sozinho, buscar ao redor uma mão que ampara e, ao invés disso, ver apenas a mão que apedreja. É fácil julgar. É fácil (pré) conceituar o que se vê pela primeira vez, o que se vê e não se enxerga. Difícil é olhar aos olhos de Deus, que apresenta um amor puro e verdadeiro, sem julgamentos, mas com afeto, amparo e cuidado. 

Deus não descarta, nunca. 

Deus recicla. 

Ele quer a melhor versão de nós mesmos e não se importa se ainda não atingimos esse estado. Ele espera, insiste, acredita. Nos dá tudo o que o mundo nos tira. 

E, o melhor: Ele também nos ensina a ser assim!


Tem, por aí, gente que não entende muito bem, que distorce esse sentimento tão autêntico e divino pra justificar (e fazer refletir nos outros) os próprios medos e as próprias inseguranças. Mas tudo bem, entende? Essa é a lógica. Para Deus, tudo bem. Os braços celestiais estão sempre abertos, sem distinção, sem julgamentos, sem descarte. 

Ele mesmo ensinou que “o amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (Coríntios 1: 1-13) e é assim que nos ensina a viver. Na contramão da lógica do mundo, quem vivencia o amor d’Ele entende que é melhor (e até mais fácil) perdoar, identificar as inúmeras qualidades existentes em cada pessoa, sorrir, abraçar, amar, prestar atenção no outro – e o “outro” pode ser uma mãe, um tio distante ou um desconhecido na rua, não importa, todos são igualmente importantes.

Esse amor que é capaz de reciclar, de dar uma segunda chance, de parar a caminhada na direção oposta e voltar a correr junto, na sua forma mais genuína, não representa o sentimento a alguém especificamente, mas a tudo! Foi isso que aquele Deus que se fez homem, tão importante que recomeçou a contagem do tempo, nos ensinou. 

O amor se constrói em tudo, para tudo, apesar de tudo. É esse o segredo! Olhar mais, amar mais. É conseguir sentir essa energia tão intensa na gota do orvalho escorrendo na folha verde, na abelha que pousa soberana no arbusto florido pela primavera, no sol quando toca o mar ao fim da tarde e faz descer a sombra nos elementos que completam a paisagem. 

É aí que Ele mora, aí que se faz perfeito o amor. Quem se permite sentir esse Amor, não sente mais a solidão do quarto escuro. Mas, se as circunstâncias da vida fizerem a luz não mais iluminar, tudo bem – é a lógica! Ele não descarta, Ele recicla. 

Sejamos estrangeiros² aqui, não obedeçamos à imposição de um método que não se preocupa com os sentimentos no âmago de cada ser. O Céu é o nosso lugar! Que a vida na terra seja a mais harmônica possível, porque, assim, Ele nos espera lá em cima. E, pra isso, que sejamos amor. Que não descartemos. Que voltemos nossa atenção para reciclar: nossos sonhos perdidos, as amizades deixadas para trás, os parentes afastados, o mundo! Por que não? 

Nos quatro cantos existe quem só precisa da nossa mão estendida, do nosso olhar sincero, do nosso sorriso amigo. Seres que precisam, apenas, da reciclagem do “ser”. 

Que tenhamos a coragem de ir na contramão. 

Que São Francisco nos inspire a sermos pequenos, a nos despojarmos do que não acrescenta e focarmos naquilo que importa - o amor. 

Não tem segredo: Sejamos Amor!  


Primeiros dias da primavera de 2017,
Gabriela C. Nabozny.


[1] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido, Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar. 2004.
[2] BIONDO, Leonardo. Estrangeiro Aqui. In: CD Estrangeiro Aqui – Missionário Shalom. 2006. Faixa 5.


"Que possamos usar do tempo do advento para refletir sobre nossos ideais, nossos projetos e sonhos, para que, com o Nascimento Jesus, também nós possamos renascer no Amor! 
Paz e Bem!"

FONTE:https://jufrasc.blogspot.com.br/2017/12/a-reciclagem-do-ser.html?m=1  

Essa semana trazemos um tema de extrema importância: a partir do dia 26 de novembro de 2017 até 25 de novembro de 2018, vivenciaremos o “Ano do Laicato”. O tema escolhido foi: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino” e o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo”, Mt 5,13-14. Além disso, o Ano de Laicato terá como objetivo geral: “Como Igreja, Povo de Deus, celebrar a presença e a organização dos cristãos leigos e leigas no Brasil; aprofundar a sua identidade, vocação, espiritualidade e missão; e testemunhar Jesus Cristo e seu Reino na sociedade”. Portanto, podemos perceber que teremos papel fundamental como cristãos leigos, e claro como franciscanos, nesse período. Uma palavra que poderia resumir isso seria protagonismo. Esse é o ano de nos unirmos por um ideal e lutar por ele; momento de percebermos do que a Igreja e a sociedade. Mais ainda, momento da juventude cristã se unir e mostrar que também faz parte da Igreja.
Com isso, a Formação da Juventude Franciscana preparou um modelo de reunião para que as fraternidades tenham um direcionamento sobre como abordar essa temática. Confiram abaixo!

PRIMEIRO MOMENTO – conceitualizando o tema.
- Reunir todos em roda, fazer uma oração inicial, a escolha do facilitador;
- Explicar o tema do encontro (Ano do laicato), tema, lema e objetivo principal;
- Questionar ao grupo: o que é laicato? O laicato como um todo é um “verdadeiro sujeito eclesial” (DAp, n. 497a). Cada cristão leigo e leiga é chamado a ser sujeito eclesial para atuar na Igreja e no mundo. A Francisco de Assis o Cristo Crucificado ordenou: “Vai e reconstrói a minha Igreja”. Temos firme esperança de que continuarão dando grande contribuição à renovação da Igreja de Cristo e sua atuação no mundo.(doc 1) à ler/explicar após ouvir o que o grupo têm a dizer.
- Após a definição do conceito explicar a nossa importância enquanto juventude cristã e franciscana nesse período;

SEGUNDO MOMENTO – contextualização
- Aprofundar o tema e o lema:  o que sentimos ao ouvi-los? O que eles querem nos passar?
- Avanços e retrocessos de nossa Igreja/sociedade: pedir que cada um escreva em uma tira de papel e coloque no centro da roda o que considera que avançamos e retrocedemos nesses últimos anos.
- Diante disso, ao que somos chamados?

TERCEIRO MOMENTO – interiorização
- Deserto: pedir aos irmãos que se espalhem e fiquem um tempo refletindo em silêncio ao que se sentem chamados a fazer pela comunidade, pela Igreja. (‘Senhor, o que queres de mim?’)
- Tocar músicas que incentivem esse momento de reflexão e interiorização.

QUARTO MOMENTO – o que nos propomos?
‘Ser cristão, sujeito eclesial, e ser cidadão não podem ser vistos de maneira separada.’
- Encaminhamentos finais;
- Jovem cristão e franciscano: qual a nossa missão para o Ano do Laicato?
- Separar em dois ou mais grupos para pensarem intervenções possíveis em sua comunidade, e depois apresentar ao grupo.
- O grande grupo decide então pelo menos uma das intervenções a serem seguidas ao longo do ano.

- Encerramento: ultimas considerações, oração final. 
Minoridade
O maior seja como o menor, e quem manda, como quem serve”.
(Lc 22,26)
“É preciso que Ele cresça e eu diminua.”
(Jo 3,30)

Ambiente
Preparar o ambiente de modo circular, tendo ao centro elementos de nossa Espiritualidade (Imagem de São Francisco de Assis, Santa Clara de Assis, Santa Rosade Viterbo, Fontes Franciscana, Taus, Cruz de São Damião), bíblia, bacia, água, toalha.

Oração inicial
ORAÇÃO PELA FRATERNIDADE:  
Senhor, te pedimos pelas nossas fraternidades: Para que nos conheçamos sempre melhor em nossas aspirações, nos compreendamos mais em nossas limitações. Para que cada um de nós sinta e viva as necessidades dos outros. Para que nossas discussões não nos dividam, mas nos unam em busca da verdade e do bem. Para que cada um de nós, ao construir a própria vida, não impeça ao outro de viver a sua. Para que nossas diferenças não excluam a ninguém da comunidade, mas nos levem a buscar a riqueza da unidade. Para que olhemos para cada um, Senhor, com os teus olhos e nos amemos com o teu coração. Para que nossa fraternidade não se feche em si mesma, mas seja disponível, aberta, sensível aos desejos dos outros. Para que no fim de todos os caminhos, além de todas as buscas, no final de cada discussão e depois de cada encontro, nunca haja "vencidos", mas sempre "irmãos". E estará começando o caminho que termina no céu. Amém!

Minoridade, uma virtude.
“Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós o Altíssimo Senhor do céu e da terra e eu um miserável vermezinho vosso ínfimo servo!”. Francisco imitou este Deus que se fez menor na pessoa de Jesus Cristo. O Verbo de Deus se humilhou para cumprir uma missão junto ao gênero humano. Deixou as riquezas e as glórias celestiais para experimentar os limites da terra dos humanos. “Viveu simples com os simples, pobre com os pobres, transparente com todos.” Por isso que Francisco diz: “A extraordinária condescendência que o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha, que por nossa salvação se esconde debaixo de uma pequena forma de pão!” E exclama também: “Ó sublime humildade! Ó sublimidade humilde!” Um Deus que escolhe o menor lugar para servir e alimentar a todos.”

Ao falar de minoridade, está ligado à pobreza, simplicidade e humildade, a  minoridade  precisa ser   redescoberta e revalori- zada sempre de novo. S. Francisco, ao escolher o caminho da minoridade, escolheu o caminho de Deus, revelado em Jesus de Nazaré. O menor é aquele que tem cons-ciência da  lógica do dom, que compreende o irmão e tudo o mais como dom a ser acolhido, valorizado. Minoridade é, portanto, condição para a vida fraterna.
 No entanto, a minoridade é o caminho da construção de fraternidade. Não existe fraternidade de maiores, somente grupos de interesse. A fraternidade é um dom concedido aos pequenos, aos que se fazem menores diante dos outros. O outro somente emerge como irmão diante de mim quando sou capaz de me ajoelhar e lavar seus os pés.
A Minoridade implica numa postura de vida, num jeito de ser e viver, de estar no mundo e de se relacionar com as criaturas. Foi o jeito de Deus estar entre nós. É preciso descobrir a riqueza e a grandeza de ser pequeno, como o foi Jesus e seus discípulos. Esse caminho torna possível a construção de um mundo fraterno e solidário. A minoridade é a base e o fundamento da expressão do franciscanismo.
Ser menor, é reconhecer o rosto de Cristo no irmão. É “doar” a vida pelo irmão. É ser o menor a SERVIR.


EMPATIA SOCIAL – A minoridade no serviço de DHJUPIC
Entender o mundo em nossa volta tem se tornado um desafio para a juventude, que espera açodadamente galgar novos espaços, fazer novas descobertas e acompanhar a velocidade da tecnologia. São jovens que em sua particularidade temem conhecer o mundo na sua forma mais intrínseca e pura, descobrir os obstáculos e as dificuldades cotidianas de viver e tratar os outros.
Thomas Hobbes e Sigmund Freud nos dizem que somos criaturas egoístas por definição, preocupadas com autoproteção, voltadas para nossos próprios fins individualistas. Mas não nascemos assim, nós simplesmente aceitamos ser assim, assumindo toda a responsabilidade em nos tornarmos apáticos frente às dificuldades apresentadas pela/na sociedade, não nos responsabilizando por aqueles que reconhecemos que estão as margens.
Ao longo da nossa caminhada, temos o poder de escolha, o poder de decidir qual o caminho que vamos tomar, se é o da apatia ou da empatia. Ao escolher o segundo, escolhemos não viver a vida do outro, ou as características próprias do outro, mas escolhemos nos colocar no lugar dele, propondo a conhecer os seus sentimentos, dificuldades, perspectivas, desafiando-nos a entender culturas diversas a nossa compreensão.
A empatia é, de fato, um ideal que tem o poder tanto de transformar nossas vidas quanto de promover profundas mudanças sociais. A empatia pode gerar uma revolução. Não uma daquelas revoluções antiquadas, baseadas em novas leis, instituições ou governos, mas algo muito mais radical: uma revolução das relações humanas (KRZNARIC, 2005, p. 9)

Ter empatia é viver a minoridade, em que se é chamado a ser pequeno diante de Deus e viver a sua misericórdia, permitir sair do seu conforto e confrontar-se com os impactos e consequências sociais, politicas e econômicas que milhares de pessoas passam e não admitimos, é você se permitir e imaginar vivendo atrás das fronteiras que a sociedade opressora impõe, utilizando desta percepção para nortear suas próprias ações ao longo da sua vida.
Para entendermos este processo, é essencial respondermos a partir de uma reflexão do nosso íntimo Senhor, o que queres de mim?”, para ai sim, compreender quem somos, descobrir qual a nossa identidade, saber o que queremos ser, ao ponto de ter a necessidade  de se reconstruir enquanto processo de reafirmação do sujeito.
Ao seguir os passos de Jesus Cristo, baseando- se no Santo Evangelho, São Francisco com muita graça, nos mostra a concretude de se fazer menor, de se resignificar, quebrando as estruturas de sua época para testemunhar a aproximação aos pobres, marginalizados e carentes, em atitudes de serviço, que hoje somos convidados a vivenciar na fraternidade junto a Secretaria de Direitos Humanos, Justiça, Paz e integridade da criação (DHJUPIC). 
Vivenciar a dimensão da justiça é a expressão mais pura da minoridade em São Francisco de Assis, devendo nós Jufristas seguirmos o seu exemplo, não necessariamente na mesma radicalidade de despojar-se de suas vestes e dar aos pobres buscando a perfeição do ego: “Se queres ser perfeito, vai (Mt 19,21) e vende tudo (cf. Lc 18,22) que tens e dá aos pobres e terás um tesouro no céu”. Mas sim, com um olhar misericordioso e de compaixão - quero expressar que não se trata de ver o outro enquanto “coitadinho” ou de ter “pena ou dó”, mas de que nossos olhos sejam revestidos do cuidado e do amor, o mesmo amor que tens por Jesus encontrando o Cristo em cada pobre.
“Devemos aceitar com serenidade as coisas que não podemos modificar ter coragem para modificar as que podemos e sabedoria para perceber as diferentes.” (São Francisco de Assis)


ILUMINAÇÃO BÍBLICA
Jo 13, 1-15.



Reflexão
Música: Canta Francisco
Francisco e Clara
  
Nos olhos dos pobres, no rosto do mundo
Eu vejo Francisco perdido de amor
É índio, operário, é negro, é latino
Jovem, mulher, lavrador e menor

Há um tempo só de paixão, grito e ternura
Clamando as mudanças que o povo espera
Justiça aos pequenos, ordem do evangelho
Reconstrói a igreja na paixão do pobre
Há crianças nuas nesta paz armada
Há francisco povo sendo perseguido
Há jovens marcados sem teto nem sonhos
Há um continente sendo oprimido
Com as mãos vazias solidariedade
Com os que não temem perder nada mais
Defendem com a morte a dignidade
Com a teimosia que constrói a paz

Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de esperança
Que a liberdade vai chegar
Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo o que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de menino
Novo céu e terra vai chegar

Há claras, franciscos marginalizados
Cantando da América a libertação
Meninos sem lares são irmãos do mundo
Pela paz na terra sofrem parto e cruz
Francisco imagem de um Deus feito pobre
Denúncia esperança profecia e canta
Vence com coragem o império da morte
De braços com a vida em missão na história
Francisco menino e homem das dores
Reconstrói a igreja pelo mundo afora
Na fraternidade que traz a justiça
Na revolução que anuncia a aurora

Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de esperança
Que a liberdade vai chegar
Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo o que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de menino
Novo céu e terra vai chegar.

(Obs: O formador/a fazer uma reflexão através do evangelho e os textos.)
1-      O que esse tema Minoridade nos leva a refletir diante de minha fraternidade e na minha vida?
2-      Estou sendo o menor com os menores? Quais as minhas atitudes?
3-      É fácil ser o menor nesse mundo? Por que?
4-      Como podemos ser menor na sociedade?

Dinâmica
Irmãos e irmãs, recordando o gesto de Jesus com seus apóstolos, lavemos em um ato de minoridade os pés de nossos irmãos fraternos.
A fraternidade fique em círculo e o animador do encontro fraterno tenha consigo uma toalha , uma bacia e um jarro com água. Este animador lave os pés do irmão que está a sua direita (ou esquerda), o irmão que teve os pés lavados lave os pés do próximo irmão, assim sucessivamente até lavar os pés do animador.
Que sejamos servidores e amáveis com nossos irmãos e irmãs.

Preces
R- Senhor, escutai a nossa prece.
Altíssimo, tornai-nos a cada dia seres mais fraternos e compreensivos as diferenças, rezemos;
Altíssimo, enriquecei-nos com o mesmo ardor e vontade de lutar pelos irmãos mais necessitados, assim como fizeste com São Francisco, rezemos;
Altíssimo, que possamos nos entregar totalmente a sua infinita misericórdia, sendo e sentindo que somos pequenos diante de Ti no entendimento do minoridade, rezemos;
Altíssimo, fortalecei-nos na busca da vivência da minoridade em nossas fraternidades, assim como Francisco viveu em sua fraternidade, rezemos;
Preces espontâneas.
Oração
Senhor Deus, vós que se fez carne e viveu como um menor em meio ao seu povo e iluminou seu servo, nosso Pai Seráfico, no caminho da vida em fraternidade e do amor aos pobres e marginalizados, iluminai também nós, para que possamos sair de nós mesmos, desprender-nos dos planos e visões pessoais. Que busquemos sempre ir além das estruturas, dos nossos hábitos e de nossas seguranças, testemunhando o amor concreto a toda criatura. Que compreendamos as necessidades dos irmãos e saibamos ser verdadeira fraternidade. E que sendo menores diante de Ti alcancemos um dia a glória da salvação. Amém!

Referências Bibliográficas

KRZNARIC, Roman. O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 2005
FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL. Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis: Vozes, 2008.
SERGIO, Frei Paulo. Empatia. http://www.franciscanos.org.br/?p=67620. Acessado em 09/11/2017.


Joice Fátima de Oliveira
Fraternidade Perfeita Alegria, Carmo do Paranaíba/MG
Secretária Regional de Formação- Sudeste I

Noelle Carolina de Oliveira Lopes
Fraternidade Rosa de Viterbo, Betim/MG
Secretária Regional de DHJUPIC- Sudeste I

Tatiane Marques Santos
Fraternidade A caminho do Francisclarianismo, Salinas/MG
Secretária Regional de AE- Sudeste I




COM ISABEL DA HUNGRIA, PADROEIRA DA ORDEM FRANCISCANA SECULAR,
CELEBREMOS O 1º DIA MUNDIAL DOS POBRES
NÃO COM PALAVRAS, MAS COM OBRAS!



INTRODUÇÃO

O Calendário Litúrgico de 2017 promove um profético encontro entre a Festa Litúrgica de Santa Isabel da Hungria, OFS, Franciscana Secular do Século XIII que abraçou a Espiritualidade Franciscana como caminho de liberdade para SERVIR e PARTILHAR com os últimos de seu tempo e o 33º Domingo do Tempo Comum que a partir deste ano, por convocação do Papa Francisco, será o “Dia Mundial dos Pobres”,  oportunidade formativa, de à luz do Evangelho e em fraternidade, irmos ao encontro daqueles que são os preferidos de Deus. Por isso apresentamos a Juventude Franciscana do Brasil esta Roteiro de Encontro que poderá ser vivenciado como Família Franciscana (Frades, Congregações Femininas, OFS e JUFRA) para celebrar a festa de nossa padroeira com uma vivência concreta, pois, como nos recorda o Papa Francisco: “Não amemos com palavras, nem com a boca, mas com obras e com verdade!” (1 Jo 3, 18). Paz e Bem!

OBJETIVOS

o   Celebrar em Fraternidade a Festa da Padroeira da Ordem Franciscana Secular, Santa Isabel da Hungria (1207-1231);
o   Abraçar, com toda a Igreja, o “Dia Mundial dos Pobres”, reafirmando o nosso comprometimento assumido no Ideal Franciscano de Vida com a Opção Preferencial pelos Pobres nas realidades de nossas fraternidades locais;

AMBIENTAÇÃO

Preparar o ambiente de modo circular, tendo ao centro elementos de nossa Espiritualidade (Imagem/Ícone de Santa Isabel, Livros da OFS, Fontes Franciscana, Taus, Cruz de São Damião), trazer presente com destaque a Iluminação Bíblica: “Não amemos com palavras, nem com a boca, mas com obras e com verdade!” (1 Jo 3, 18), sementes variadas, tecidos, velas, como convier na realidade da fraternidade.
Sugestão: Como Igreja em Saída, este Encontro pode ser realizado ao ar-livre, em alguma ONG ou Instituição Social, Casas de Recuperação, Asilos, Albergues, indo ao encontro dos leprosos de nosso tempo, para rezar, celebrar e conviver

ACOLHIDA

Coordenador: O Dia Mundial dos Pobres foi instituído por Francisco, na conclusão do Ano Santo extraordinário da Misericórdia, com uma Carta Apostólica intitulada “Misericórdia e mísera”. A celebração, ‘sinal concreto” do Ano Jubilar, se realizará no XXXIII Domingo do Tempo Comum, que este ano cai em 19 de novembro. Com a Festa Litúrgica, em 17 de Novembro, celebramos o carisma franciscano de Santa Isabel da Hungria, como imitação alegre e amorosa de Jesus “pobre, desprezado e crucificado”, com uma característica pessoal irrepetível: a extraordinária caridade para com o próximo. Seguindo o ensinamento de São Francisco, Isabel, quando o marido ainda era vivo, tecia lã juntamente com as servas para confeccionar roupas destinadas aos pobres.
Oração a Santa Isabel da Hungria
Ó Deus, que destes a Santa Isabel da Hungria reconhecer e venerar o Cristo nos pobres, concedei-nos, por sua intercessão, servir os pobres e aflitos com incansável caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

VER
Coordenador:  Queremos, neste momento conhecer um pouco mais da história da Padroeira da Ordem Franciscana Secular, Santa Isabel da Hungria, conhecendo seis aspectos de sua vida e que a fizeram nossa padroeira:

Leitor 1: O IDEAL FRANCISCANO – Isabel (ou Elisabeth, em Alemão) nasceu na Hungria em 1207, filha do rei André II e de Gertrudes de Merânia. Com a idade de quatro anos é enviada como noiva do filho primogênito do conde Hermann I à corte da Turíngia - região situada na extremidade sudoeste da Alemanha. Criada nessa atmosfera frívola e casando-se com Luís aos quatorze anos, Isabel entra em contato com os primeiros missionários franciscanos na Alemanha. No caso de Isabel não se pode falar de “conversão” mas o que ela encontra no ideal franciscano é o enriquecimento e aprofundamento de valores da fé. Os testemunhos de Francisco e Clara vão ao encontro do desejo que Elisabeth sempre conservou em seu coração.

Leitor 2: NOBREZA DE SER E NÃO DE TER – Das fontes dos testemunhos de personagens que passaram pela vida de Isabel, aflora uma figura de mulher completa como moça, mãe e viúva consagrada ao serviço dos pobres e dos doentes, rica de humanidade e com profunda vida interior. Seu ideal de santidade se caracteriza pelo equilíbrio entre as obrigações às quais estava vinculada como filha de rei e landgravina de um poderoso Estado e as práticas de uma vida religiosa pobre e austera.
Leitor 3: MULHER: Há nesta grande mulher uma profunda humanidade, uma sensibilidade de seus atos e suas palavras além de uma vontade de viver não para si, mas para os outros, que se traduz num amor sem limites pelo marido, pelos filhos e a mesma delicadeza e atenção para com os outros, especialmente os pobres e sofredores. Da classe nobre a que pertencia tinha o porte senhoril e a disponibilidade de recursos, mas não a vaidade e separação que costumeiramente criam distância e estabelecem submissão.
Leitor 4: ESPOSA E MÃE: Aos quatorze anos Isabel se torna finalmente esposa de Ludovico, tendo as bodas celebradas em maio de 1221. Em setembro já esperava seu primogênito com tremor, mas também com a máxima confiança em Deus. Não aproveitou de seu estado para entregar-se à indolência e ao nada fazer. Ao contrário, sentia uma força nova que a impulsionava a dedicar-se aos outros, particularmente às crianças mais pobres, como se o instinto materno se dilatasse ao infinito. Em março, Isabel deu à luz seu primeiro filho, Hermano.

Leitor 5: FRANCISCANA SECULAR: Isabel era uma “religiosa” vivendo no mundo. O incentivo e o estímulo para esta escolha foram essencialmente franciscanos, ou seja, o mesmo que tinha motivado Francisco e Clara: a altíssima pobreza. Em 1228 faz um ato solene de consagração, na forma mais estrita da sequela Christi, que consistia em seguir o Cristo pobre e humilde, na capela de seu castelo.

Leitor 6: OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES: Os motivos que fizeram com que Isabel se dirigisse aos leprosos foram os mesmos de Francisco. Antes de tudo, era uma escolha teológica, cristocêntrica, decorrente do desejo de imitar Jesus Cristo em tudo. Nos irmãos atingidos pelo terrível mal ela via a imagem do Salvador atingido pelos pecados do mundo. Não podemos esquecer alguma coisa que em Isabel era muito forte: a participação humana nos sofrimentos dos outros.



ILUMINAR
Iluminação Bíblica 1 João 3, 16-19

Leitura da Primeira Carta de São João. Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações. Palavra do Senhor.

Coordenador: Deixemos que Palavra de Deus ecoe em nosso coração e produza verdadeiros frutos de conversão. Por isso, podemos de modo silencioso, retornar a leitura e refletir sobre os nossos irmãos marginalizados: Rostos de Deus no mundo.
(Momento de Meditação da Palavra de Deus, por isso, é importante conduzir e propor uma pequena partilha, com as palavras que mais tocam cada irmão. Sugerimos encerrar este momento com a música a seguir.)

REFLEXÃO – SEU NOME É JESUS CRISTO (Pe. André Luna)


Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa a igreja

Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos

Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto
E vive mendigando um subemprego
E a gente quando vê, diz: "é um à toa
Melhor que trabalhasse e não pedisse"

Seu nome é Jesus Cristo e está banido
Das rodas sociais e das igrejas
Porque d'Ele fizeram um Rei potente
Enquanto Ele vive como um pobre

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos

Seu nome é Jesus Cristo e está doente
E vive atrás das grades da cadeia
E nós tão raramente vamos vê-lo
Dizemos que ele é um marginal

Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento
Por um mundo de Amor e de Justiça
Mas logo que contesta pela Paz
A ordem o obriga a ser de guerra

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos

Seu nome é Jesus Cristo e é difamado
E vive nos imundos meretrícios
Mas muitos o expulsam da cidade
Com medo de estender a mão a ele

Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem
E vive neste mundo ou quer viver
Pois pra Ele não existem mais fronteiras
Só quer fazer de todos nós irmãos

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos



AGIR

Coordenador: Recentes estudos dão conta de que no Brasil a pobreza continua enorme e tende a crescer. A classe A da população, 3,8% dos brasileiros com renda familiar mensal superior a R$ 17.286, detém 38% da renda global do país; enquanto isso, as classes D e E, que somam 54,3% da população mais pobre e tem renda mensal familiar abaixo de R$ 2.302, detém apenas 16,3% da renda global (revista Veja, 5/7, página 66). A concentração da renda é fator de perenização da pobreza no Brasil. Vejamos o que diz o Papa Francisco sobre a Pobreza Contemporânea: “Ela é difusa e onipresente, aparecendo nos rostos marcados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas, a prisão, as guerras, a privação da liberdade e da dignidade, a ignorância e o analfabetismo, a falta de saúde e de assistência sanitária, a falta de trabalho, o tráfico de pessoas, as escravidões, as migrações forçadas. São homens, mulheres e crianças explorados por interesses vis, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. O elenco constrangedor dos pobres é impiedoso e nunca completo, fruto de injustiça social, da corrupção, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada”. O que, como Franciscanos e Franciscanas, temos feito? Como temos agido?
(Propomos neste momento uma “Tempestade de Ideias” a partir de GESTOS CONCRETOS que a Fraternidade deverá assumir a partir deste encontro e da Celebração do Dia Mundial dos Pobres. Certamente, duas ou três ações são suficientes para que toda a fraternidade possa assumir e realizar, integrando vivência e testemunho, palavras e vida.)

CELEBRAR

Coordenador: Uma certa vez, Santa Isabel, tendo tomado conhecimento de um mendigo enfermo de aspecto horrendo, que sofria de dificuldades mentais, tomou-o escondidamente, cortou-lhe os cabelos, mantendo-o amorosamente reclinado junto de seu seio. Depois de tê-lo lavado, deixou-o escondido num canto do jardim para evitar os olhares curiosos dos outros. Foi, no entanto, descoberta e repreendida. Justificou-se, mostrando o mais belo sorriso. Em todas as obras de misericórdia, chamava atenção de modo particular o sorriso sincero que enfeitava perenemente seu rosto. Estamos diante de uma mulher em que santidade e feminilidade se unem harmoniosamente, evidenciando uma simbiose perfeita entre natureza e graça.
(Neste momento, aquele que conduz convida alguma irmão da OFS que entregará para cada irmão presente um pouco de sementes, representando o compromisso a ser assumido nesta Festa)

ENTREGA DAS SEMENTES – O MEU REINO (Frei Fabretti)


1 - O meu Reino tem muito a dizer,
não se faz como quem procurou,
aumentar os celeiros bem mais e sorriu.
Insensato, que vale tais bens,
se hoje mesmo terás o teu fim?
Que tesouros tu tens pra levar além.

Sim Senhor, nossas mãos vão plantar o teu reino. O teu pão vai nos dar teu vigor, tua paz.

2 - O meu reino se faz bem assim:
Se uma ceia quiseres propor,
não convide amigos, irmãos e outros mais.
Sai à rua a procura de quem
não puder recompensa te dar,
que o teu gesto lembrado será por Deus.

3 - O meu reino quem vai compreender?
Não se perde na pressa que tem,
sacerdote e levita que vão se cuidar.
Mas, se mostra em quem não se contém,
se aproxima e procura o melhor
para o irmão agredido que viu o chão.

4 - O meu reino não pode aceitar,
quem se julga maior que ops demais
por cumprir os preceitos da lei, um a um
a humilde de quem vai além
e se empenha e procura o perdão,
é o terreno onde pode brotar a paz.

5 - O meu reino é um apelo que vem,
transformar as razões do viver,
que te faz desatar tantos nós que ainda tens.
Dizer sim é saberes repor
tudo quanto prejuizo causou,
dar as mãos , repartir, acolher, servir!



MOTIVAÇÃO FINAL

Coordenador: Na Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, o Papa Francisco nos ensina: “Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45). Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida”. Por isso, queremos encerrar este encontro com a Benção. Nosso desejo e compromisso não é de sermos abençoados por Deus, pois isso já somos a todo tempo, mas de nós mesmos sermos a Benção de Deus aos Pobres de nosso tempo e acolhê-los também nós somos abençoados, e fazer o Reino acontecer.



ANEXO
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES
XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(19 DE NOVEMBRO DE 2017)

«Não amemos com palavras, mas com obras»


1. «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta. Apesar de ser dado de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca, ele abrasa de tal forma o coração, que toda e qualquer pessoa se sente levada a retribuí-lo não obstante as suas limitações e pecados. Isto é possível, se a graça de Deus, a sua caridade misericordiosa, for acolhida no nosso coração a pontos de mover a nossa vontade e os nossos afetos para o amor ao próprio Deus e ao próximo. Deste modo a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade.
2. «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sl 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).
«Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à ação concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).
3. Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres. Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!
Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou neste encontro a viragem da sua conversão: «Quando estava nos meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test 1-3: FF 110). Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos.
Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).
Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.
4. Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45).
Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida.
5. Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!
Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.
Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de abertura na II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.
6. No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Predecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres.
Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.
7. Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.
Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam proteção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai.
8. Na base das múltiplas iniciativas concretas que se poderão realizar neste Dia, esteja sempre a oração. Não esqueçamos que o Pai Nosso é a oração dos pobres. De facto, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida. Tudo o que Jesus nos ensinou com esta oração exprime e recolhe o grito de quem sofre pela precariedade da existência e a falta do necessário. Aos discípulos que Lhe pediam para os ensinar a rezar, Jesus respondeu com as palavras dos pobres que se dirigem ao único Pai, em quem todos se reconhecem como irmãos. O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é «nosso», e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco.
9. Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.
Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.

Vaticano, Memória de Santo António de Lisboa, 13 de junho de 2017.
Franciscus

Vinícius Fabreau

Secretário Regional de Formação (Sudeste 3- SP)