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CLARA DE ASSIS: entre o claustro e a itinerância



By  Juventude Franciscana JUFRA) do Brasil     10:43     

Por Frei Celso Márcio Teixeira, OFM* 
Petrópolis – RJ
Introdução
As pesquisas sobre as fontes do franciscanismo tiveram grande impulso a partir do final do século XIX, intensificando-se na segunda metade do século XX diante do apelo do Concílio Vaticano II, que convocava os diversos grupos de vida consagrada a um retorno vivificador às origens de sua própria espiritualidade. As pesquisas específicas sobre as fontes referentes a Santa Clara, iniciadas na segunda década do século XX, tiveram, porém, impulso menos intenso, talvez devido ao fato de os pesquisadores dedicarem-se com mais empenho à solução dos nós problemáticos que as fontes referentes a São Francisco apresentavam. Deste modo, ainda hoje, apesar de algumas conquistas definitivas, muita coisa sobre Santa Clara está como que sob um véu, na penumbra, o que permite aos estudiosos não muito mais do que moverem-se num campo povoado de opiniões e hipóteses.

O presente trabalho coloca-se também nesta perspectiva. Expressa tão somente algumas opiniões e tenta fundamentar as viabilidades delas, sem pretensão de prová-las ou de torná-las resultados definitivos, mas apenas contribuir para o debate que, muitas vezes, se tem contentado com afirmações não resultantes de uma leitura mais crítica das fontes e da história.
A questão focalizada neste trabalho é se Clara quis uma vida no claustro ou levar uma vida idêntica à de São Francisco, isto é, andando pelo mundo como uma pregadora itinerante; em outros termos, se ela foi obrigada a trilhar o tradicional caminho da vida consagrada, devendo, por isso, sufocar seu anseio por algo realmente novo, como o apresentado por Francisco.
A abordagem desta questão, porém, depara-se com uma dificuldade e procura evitar uma tentação. A dificuldade consiste no fato de que é praticamente impossível saber o que uma pessoa pensou ou quis na Idade Média, a não ser que ela se tenha pronunciado explicitamente sobre o assunto ou, pelo menos, o tenha deixado transparecer nas entrelinhas; e a tentação é a de, na falta de documentação mais decisiva, a argumentação não ultrapassar o puro subjetivismo, projetando na Idade Média desejos e sentimentos de hoje, construindo a história como gostaria que ela tivesse sido. Ora, Clara não se pronunciou sobre o tema, e o que se pode colher nas entrelinhas é muito limitado e extremamente vago.
Conscientes de todas estas limitações, abordamos inicialmente quatro argumentos que comumente se apresentam para justificar que Clara teria preferido a itinerância à vida do claustro e tentamos tecer algumas ponderações a respeito de cada um deles. Feitas estas ponderações, respaldando-nos em experiências no campo religioso feminino que surgiam exatamente naquele contexto de inícios do século XIII, esboçamos uma interpretação – embora não totalmente nova – na tentativa de uma aproximação daquele que teria sido o estilo de vida de Clara e de suas irmãs, pelo menos em sua fase inicial.
1. Argumentos e considerações
a) A opinião de que Clara teria preferido a vida itinerante procura justificar-se na declaração de algumas irmãs no Processo de Canonização. Mais explícita, a sexta testemunha, Irmã Cecília, filha de Messer Gualtieri Cacciaguerra de Spello, disse em seu depoimento

“que dona Clara tinha tanto fervor de espírito que gostaria de enfrentar o martírio por amor do Senhor. Demonstrou isso, quando ouviu contar que alguns frades tinham sido martirizados em Marrocos, e disse que queria ir para lá” (Processo de Canonização [=PC] 6,6).
Anton Rotzetter sugere que, com o desejo do martírio, Clara teria também o desejo de levar uma vida itinerante, à maneira dos frades menores (1). Aliás, em outra parte, ele afirma que os frades menores e as irmãs de Santa Clara constituíam uma única Ordem (2). E, ao lembrar os grupos de mulheres itinerantes surgidos em 1241, doze anos antes da morte de Clara, as quais se denominavam de irmãs menores, reafirma que teria sido este o desejo de Clara, embora não se saiba se ela tivesse conhecimento desses casos (3).
Uma primeira consideração diz respeito à interpretação do testemunho de Ir. Cecília. A rigor, não se pode do desejo do martírio deduzir o desejo de vida itinerante. Clara poderia muito bem querer fundar um mosteiro em terras dos sarracenos sem forçosamente pretender dedicar-se à pregação itinerante, como, de fato, mais tarde fundou mosteiros pela Itália sem que as irmãs se dedicassem à pregação itinerante.
Uma segunda consideração é que as três Ordens fundadas por São Francisco podem constituir um movimento espiritual único, mas a história e a documentação de que dispomos não nos possibilita afirmar que frades menores e irmãs de Santa Clara constituíam uma única Ordem, uma espécie de Ordem mista de mulheres e homens. Das fontes externas à Ordem, apenas dois cronistas parecem fazer alusão às irmãs de Clara, a saber, Jacques de Vitry e o autor da Vida de Gregório IX.
O primeiro, em carta escrita em 1216, relata que viu nas proximidades de Perúgia pessoas de ambos os sexos que deixaram tudo por Cristo. Assim descreve a vida dos homens:
“De dia, entram nas cidades e vilas, dedicando-se ao trabalho pela ação; de noite, voltam ao eremitério ou lugares solitários, dedicando-se à contemplação… Depois disso [do Capítulo], dispersam-se por todo o ano pela Lombardia, Toscana, Apúlia e Sicília”.
Já a descrição da vida das mulheres mostra que se trata de um estilo de vida totalmente diferente:
“As mulheres, porém, vivem juntas em diversas hospedarias perto das cidades, nada recebem, mas vivem do trabalho de suas mãos” (4).
O cronista percebeu um movimento religioso que atingia homens e mulheres, mas não afirma que se tratasse de uma única Ordem. Aliás, ao dizer que as mulheres “vivem juntas emdiversas hospedarias perto das cidades”, o autor da carta parece não falar exclusivamente de Clara e de suas irmãs, pois em 1216 não havia outros mosteiros de clarissas, a não ser somente o de São Damião (5).
O segundo cronista, na Vida de Gregório IX, em arroubos de entusiasmo, atribui ao Cardeal Hugolino (depois Gregório IX) a fundação da Ordem dos Irmãos Penitentes (Ordem Terceira) e a das Senhoras Reclusas (estaria referindo-se exclusivamente às irmãs de Santa Clara?). Aos frades menores Hugolino teria dado somente nova regra. Nem este cronista sugere que se tratasse de uma Ordem mista de homens e mulheres.
Pelo contrário, outra fonte externa à Ordem, a Crônica de Burcardo de Ursperg, ao mencionar certas “práticas repreensíveis” dos pobres de Lião, entre as quais a de homens e mulheres “andarem juntos pelos caminhos e morarem quase sempre na mesma casa”, afirma que o senhor papa confirmou a Ordem dos frades menores que rejeitavam “estas práticas repreensíveis” (6). Além do mais, se se tratasse de uma Ordem mista, a regra franciscana deveria de algum modo deixar transparecer essa realidade, pois a regra é uma codificação da experiência e da vida do grupo.
Portanto, das fontes disponíveis é impossível deduzir que Clara tivesse preferido a vida itinerante e que os frades menores e as irmãs de Santa Clara constituíssem uma única Ordem.
b) Outra argumentação tenta justificar que Clara somente não assumiu a pregação itinerante, porque teria sido forçada pela hierarquia da Igreja a uma vida claustral.
Esta argumentação é totalmente despojada de consistência. Se levarmos em consideração a personalidade desta mulher, diríamos que ela nunca foi forçada a assumir uma vida que fosse contrária ao seu propósito e desejo. Quando, por exemplo, ela percebeu, após o Concílio IV de Latrão, em 1215, que novidades poderiam advir que descaracterizassem seu propósito, ela se adiantou ao papa, pedindo o privilégio da pobreza (Legenda de Santa Clara [= LSC] 14); quando o papa Gregório IX quis permitir que Clara aceitasse propriedade, ela o recusou com a máxima firmeza (PC 1,13; 2,22; 3,14; LSC 14); quando o papa quis tirar os frades da assistência espiritual das irmãs, ela reagiu veementemente, negando também a assistência material (esmolas) dos frades (LSC 37); quando Inocêncio IV escreveu novas constituições para Clara e suas irmãs, ela reagiu com tanta determinação que o papa se viu na obrigação de voltar atrás em sua proposta.
O único elemento que poderia dar alguma margem a este argumento é o do testemunho de Irmã Pacífica de Guelfúccio de Assis:
“A testemunha também disse que, três anos depois que a sobredita dona Clara entrou na religião, recebeu o regimento e o governo das Irmãs, a pedido e por insistência de São Francisco, que praticamente a obrigou” (PC 1,6; LSC 12).
Ora, São Francisco obrigou-a a aceitar o cargo de abadessa, como mais tarde também a obrigou a abrandar seus rigorosíssimos jejuns, prescrevendo-lhe inclusive uma dieta alimentar. Nesse segundo caso, parece que Clara não queria seguir o abrandamento proposto por Francisco, motivo pelo qual Francisco procurou o respaldo do bispo de Assis (cf. PC 1,8). Mas nada disso implica que alguém da hierarquia (ou mesmo Francisco) tenha obrigado Clara a viver contrariamente àquele que teria sido o seu propósito. O que se percebe é que, quando se trata de algo que atinge ou possa comprometer o essencial de seu propósito, ela reage com todo o vigor. Ao contrário, quando se trata de aspecto simplesmente organizativo (aceitar o governo das irmãs) ou de bom senso (moderar o jejum), ela é capaz de acolher com humildade.
c) Outro argumento alega que as circunstâncias históricas proibiam Clara de levar uma vida diferente da vida monacal, visto que socialmente se impunha à mulher a proibição de andar pelo mundo. Portanto, a única chance de vida religiosa possível para ela era a monacal.
Este argumento não leva em consideração um elemento importante daquela época: alguns movimentos de penitentes conheciam o fenômeno de mulheres que levavam vida itinerante. E a partir da segunda metade do século XII, com o surgimento das Beguinas na Bélgica, intensifica-se a participação das mulheres na busca de novos modelos de vida religiosa (7). Embora o movimento não tivesse sido uniforme em todos os lugares, alguns grupos reivindicavam a pregação itinerante.
É claro que, apesar de no século XIII as beguinas contarem com o apoio da Igreja, ainda pairava sobre elas a suspeita de heresia. O cronista acima citado, Burcardo de Ursperg, já se referia ao fenômeno de mulheres itinerantes, elencando-o entre as “práticas repreensíveis”, possivelmente porque a prática da itinerância, de maneira geral, estivesse muito próxima da heresia. Mas, se tivesse sido este o propósito de Clara, ela poderia tê-la adotado e, exatamente como Francisco, dado a ela um novo perfil, tirando dela a suspeita e acusação de “prática repreensível”.

A partir de sua personalidade corajosa, capaz de enfrentar os familiares que não hesitavam em adotar medidas violentas (cf. LSC 9, 25-26), torna-se difícil admitir que a simples possibilidade de ser mal vista pela sociedade pudesse abalar os propósitos de Clara. Mesmo que a fama pública (8) a chamasse de louca – como chamaram a Francisco e aos seus primeiros companheiros – é difícil acreditar que Clara não estivesse disposta a tudo suportar por aquilo que teria constituído a alma de propósito.
d) Um último argumento, próximo ao anterior, afirma que ela não teria conhecido outra maneira de viver a vida religiosa, a não ser a monacal. Por isso, não teve escolha.
Se retomarmos com atenção o episódio da fuga de Clara da casa paterna, verificaremos que ela se refugiou primeiramente num mosteiro de beneditinas (São Paulo de Bastia), nos arredores de Assis. Depois de uma semana, ela foi transferida para Santo Ângelo de Panzo, ainda em Assis. Aí, vivia uma comunidade de irmãs que seguiam o caminho da penitência e experimentavam uma nova forma de vida religiosa (9). Era algo diferente da vida monacal. E Santo Ângelo de Panzo, em 1211-1212 (quando se deu a transferência de Clara), não era um mosteiro, mas uma igreja dependente da catedral de São Rufino. Só vem nomeado como mosteiro em 1232-1233 e, cinco anos mais tarde, aparece como um dos mosteiros da Ordem de São Damião (10).
Clara encontrou em Santo Ângelo mulheres que queriam viver intensa vida de caridade, de oração e de penitência, vivendo de esmolas dos passantes, e buscavam vida religiosa além dos canais tradicionais da vida monástica e acabaram promovendo novas experiências (11). Possivelmente, elas nem professassem uma regra reconhecida oficialmente.
Em todo caso, após este contato com aquela comunidade – mesmo que tenha sido por breve tempo –, torna-se particularmente difícil sustentar que Clara não conhecesse alternativas e que não estivesse a par de novas formas de vida religiosa feminina que eram buscadas e experimentadas exatamente naquele tempo e tão proximamente a ela.
2. O fenômeno do eremitismo urbano
A experiência de Clara em Santo Ângelo de Panzo não pode ser minimizada e deve ser considerada em um contexto histórico mais amplo. M. Bartoli chama a atenção para um fenômeno novo na época de Clara, o do eremitismo urbano, praticado pormulieres religiosae, como genericamente eram chamadas. Estas mulheres escolhiam viver como reclusas “dentro da cidade ou em lugares isolados, mas sempre próximos de um centro habitado” (12). Este fenômeno assumia proporções notáveis na Itália Central, sobretudo na Úmbria (13), região onde se situa a cidade de Assis, portanto, muito próximo de Clara. M. Bartoli assim descreve a transformação pela qual estava passando o ideal de perfeição evangélica nos inícios do século XIII:
“A transformação do ideal de perfeição evangélica proposto aos homens, a qual se havia dado naqueles anos, era evidente: não mais comunidades fechadas em si mesmas…, mas grupos itinerantes de homens preocupados em pregar e dialogar com os habitantes da cidade. Menos conhecida é a transformação de ideal proposto às mulheres que, sobretudo na Itália, foram fazendo aparecer novas formas de religiosidade urbana, uma religiosidade que não pretendia opor-se à cidade nem oferecer uma alternativa com relação à cidade, mas plenamente inserida nela” (14).
Em seguida, M. Bartoli descreve o estilo de vida levado por estas mulheres:
“O mais das vezes, estas mulieres religiosae… optavam por uma vida em comum em suas casas, castamente, trabalhando com as próprias mãos e dedicando-se às obras de misericórdia… A nova religiosidade feminina, porém, não se limitou a descobrir novas formas de vida ativa, mas foi elaborando também uma nova espiritualidade, através da qual encontrou novas formas de vida de oração: deu-se o surgimento do eremitismo urbano… Estas mulheres, muitas vezes sozinhas, mas também com uma ou mais companheiras, viviam em estreita relação com o ambiente circunstante: recebiam assistência espiritual de algum clérigo, normalmente designado pelo bispo, e assistência material através de ofertas dos vizinhos ou dos que passavam”(15).
Esta efervescência religiosa atingiu as mulheres da Toscana. O desejo delas era o de realizar uma vida em comum, “fugindo das seduções e riquezas do mundo”. Elas fizeram nítida opção pela pobreza, renunciavam às posses pessoais. Geralmente, eram provenientes de famílias nobres ou abastadas. Por isso, recebiam o título de dominae (= senhoras): pauperes dominae reclusae. E a reclusão era uma das características de sua vida, uma reclusão de tipo urbano, inserido no tecido social e espiritual da cidade toscana do século XIII (16).
3. A novidade da vida de Clara
Dentro deste quadro, a vida de Clara e de suas primeiras irmãs ganha um novo colorido, adquire sabor de novidade: Clara não se insere na vida tradicional, monástica, mas opta pelo eremitismo urbano. Concordamos com M. Bartoli em suas inequívocas afirmações:

“A vida em São Damião, nem é preciso sublinhá-lo, era uma vida eremítica… A comunidade de São Damião foi, desde o início, uma comunidade eremítica, formada por mulheres que seguiam à letra o preceito evangélico de ‘procurar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça’ e que queriam viver sua vida de oração no isolamento e na separação do mundo…; a comunidade, de fato, foi eremítica desde o começo”(17) .
E a própria estrutura arquitetônica de São Damião não nos permite dizer que se tratasse de um mosteiro. Era uma igrejinha marcadamente rural, fora dos muros da cidade, mas não muito distante, semelhante aos eremitérios dos primeiros frades, tais como a Porciúncula, Carceri, Rivotorto e outros. Com o tempo é que se fizeram adaptações mais amplas para abrigar um número maior de irmãs. Todas estas semelhanças com o eremitismo urbano faziam com que Clara e suas irmãs estivessem mais próximas das pauperes dominae reclusae do que daquelas que abraçaram a vida monástica tradicional.
Inicialmente, nem todos os grupos das dominae reclusae tinham uma regra. Quanto a Clara e suas irmãs, desde o início, elas se regiam por uma forma vitae dada por São Francisco, segundo notícia dada pela própria Clara no capítulo VI da sua regra. Não se conhece o conteúdo todo desta “forma de vida”. Aquelas poucas palavras de São Francisco transmitidas por Clara na sua regra não constituem propriamente uma “forma de vida”. Soam mais como uma introdução. A. Rotzetter esboça uma hipótese bastante viável: Clara teria pautado sua vida segundo a Regra para os eremitérios, escrita por São Francisco (18).
A nosso ver, se não foi a mesma regra para os eremitérios, de São Francisco, deveria ter sido muito parecida, pelo menos em suas linhas fundamentais.
A partir de 1219, porém, todos os grupos das dominae reclusae(que se propunham viver o eremitismo urbano) estavam sob a proteção e guia do Cardeal Hugolino, que lhes escreveu as constituições, baseadas nas constituições cistercienses, com forte acento na clausura. O grupo de São Damião não ficou isento destas constituições. A vida das damianitas, porém, fundamentalmente continuava sempre pautada pela forma de vida dada por São Francisco. E, onde houvesse contradição entre a forma de vida e as constituições hugolinianas, prevalecia a disposição da forma de vida. Somente no fim da vida, Clara resolveu elaborar sua própria regra, baseando-se primariamente na regra franciscana, mas levando em conta também alguns aspectos organizativos das constituições hugolinianas. E, evidentemente, sua regra codificava aquilo que era o modo de vida daquele grupo.
Alguns exemplos nos ajudarão a perceber a impostação diferente de Clara com relação às constituições hugolinianas:
a) Clausura – No que concerne à clausura, embora esta constituísse um elemento característico do eremitismo urbano, a de São Damião, contrariamente às constituições hugolinianas, nunca significou um fechamento às pessoas e ao mundo. Na clausura de São Damião – o que parece uma contradição – as pessoas eram constantemente acolhidas. Os numerosos frades que chegavam a Assis em peregrinação visitavam também São Damião (19). E a movimentação de frades, em determinado período, tornou-se tão intensa que Francisco se sentiu na obrigação de impor normas restritivas. Outras pessoas também visitavam as Senhoras Pobres de São Damião. Numerosas eram as pessoas que levavam a Clara os doentes para que ela lhes impusesse as mãos ou lhes fizessem um sinal da cruz (cf. LSC 27; 32-33).

Quanto à possibilidade de uma reclusa sair do claustro, as constituições hugolinianas estabeleciam clausura perpétua, isto é, a reclusa só podia sair para fundar outro eremitério. A prática de São Damião deixava espaço para que as irmãs saíssem por “motivo útil, razoável, manifesto e aprovado” (cf. RSC 2,12).
b) Silêncio – Clara nunca aceitou a proibição de falar que consta nas constituições de Hugolino, mas fez do diálogo espiritual e da pregação pontos centrais da vida de sua comunidade (20). O silêncio proposto pelas constituições de Hugolino era perpétuo. A prática de São Damião, codificada na regra de Clara, estabelece como tempo de silêncio o espaço que vai das Completas até Terça, isto é, durante a noite. O silêncio absoluto de Clara vale somente para a igreja, o dormitório e o refeitório. Na enfermaria, as irmãs podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas; mas podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte (grifo nosso), brevemente e em voz baixa (cf. RSC 5,3-4). E as irmãs enfermas, quando visitadas por quem entra no mosteiro (portanto, por pessoas de fora), podem responder, cada uma por si (sem intermediários) aos que lhes falarem (cf. RSC 8,19).
c) As grades e as cortinas ­– Clara mantém a disposição das grades no parlatório e na igreja e, na parte de dentro destas, de cortinas. A função das cortinas nas constituições hugolinianas era a de impedir que as irmãs vissem as pessoas e que fossem vistas. Mas, para Clara, esta disposição tem um valor extremamente relativo. Imediatamente após esta disposição, ela estabelece quando a cortina deve ser removida: quando é pregada a palavra de Deus às irmãs e quando alguma irmã estiver falando com alguém (cf. RSC 5,10). A função da cortina é minimizada a ponto de praticamente perder seu sentido.
d) Serviço fora do claustro – O capítulo IX da regra de Clara trata, entre outras coisas, das irmãs que prestam serviço fora do claustro (cf. RSC 9,12). A pergunta que naturalmente brota é: que tipo de serviço seria este? Constituiria este serviço o “motivo útil” que permite que a irmã deixe a clausura, como se falou pouco acima?

A. Rotzetter identifica esse serviço com o pedir esmolas (21). Na mesma linha de interpretação se coloca P. Dinzelbacher que, ao aproximar o modo de vida de Clara do das beguinas, levanta a hipótese de que Clara e suas irmãs saíam pela cidade e pelos arredores, pedindo esmolas, exatamente como faziam as beguinas (22).
A Legenda de Santa Clara, porém, apresenta-nos um quadro diferente. Os responsáveis pelas esmolas eram os frades menores (cf. LSC 16). E, a deduzir do depoimento da primeira testemunha do Processo de canonização, Ir. Pacífica de Guelfuccio, dois anos após o início da experiência em São Damião, as irmãs já contavam com o frade esmoler (cf. PC 1,15). E, no capítulo VIII de sua regra, onde se aborda o tema da pobreza – portanto, no fim da vida de Clara –, ela diz: “mandem pedir esmolas” (RSC 8,2). Conclui-se, então, que pedir esmolas não era tarefa das irmãs, embora esta conclusão não exclua que talvez em algum momento de sua vida em São Damião elas tivessem sido esmoleres.
Ora, o fato de sugerir na regra que esmolar não é tarefa das irmãs e de falar do serviço das irmãs fora do claustro leva-nos à dedução de que este serviço não pode ser identificado com o pedir esmola. Com J. C. Pedroso (23), sustentamos como muito provável a hipótese de que o serviço prestado fora do mosteiro pelas Senhoras Pobres de São Damião pudesse ser uma assistência aos pobres (talvez aos leprosos). E M. Bartoli, apontando a semelhança entre a prática de São Damião com a do mosteiro de Praga, corrobora a viabilidade de nossa interpretação. Afirma o autor:
“Aliás, Inês vivia num mosteiro em Praga que tinha, contígua, uma hospedaria onde as sorores prestavam serviços, levando assim uma vida ativa. Certamente, Clara estava a par do estilo de vida das sorores de Praga, que devia lhe parecer perfeitamente semelhante ao seu, e nunca passou por sua cabeça fazer alguma intervenção ou tecer alguma crítica sobre o assunto” (24).
Ousaríamos especificar: se as irmãs de Praga levavam um estilo de vida “perfeitamente semelhante” ao de São Damião, é porque o de Praga, de certo modo, procurava adequar-se ao de São Damião. O que não causaria nenhuma estranheza, se considerarmos que foram enviadas cinco irmãs de São Damião para a fundação do mosteiro de Praga (25).
Estes detalhes são, a nosso ver, suficientemente eloquentes e reveladores da maneira como Clara concebe sua vida eremítica, levando-nos a concordar com M. Bartoli em que a espiritualidade da clausura proposta pelas constituições de Hugolino nunca foi vivida em São Damião (26). Em outras palavras, apesar de juridicamente estarem sujeitas às constituições hugolinianas, Clara e suas irmãs sempre pautaram sua vida segundo a forma de vida dada por São Francisco.
Conclusão
Após estas simples considerações, chegamos a umas poucas conclusões, embora não definitivas: a) Dificilmente se pode sustentar, a partir das fontes, que Clara tivesse preferido a vida itinerante à vida do claustro, a não ser que se descubram novos documentos que sejam mais explícitos. b) De outro lado, resulta claro que ela não quis aderir à vida religiosa monástica tradicional, caso contrário, ela teria entrado simplesmente em qualquer mosteiro de monjas beneditinas. c) Soa-nos como mais provável que Clara tenha optado por um caminho novo. Do mesmo modo que Francisco optou pela itinerância como estilo de vida, elemento característico dos movimentos religiosos masculinos, Clara abraçou o eremitismo urbano, a novidade que surgia no horizonte da religiosidade feminina, abrindo às mulheres perspectivas de vida religiosa além das formas tradicionais.
A novidade de Francisco e de Clara parece ter vindo ao encontro das expectativas da época, a julgar pela rápida expansão tanto do movimento dos frades como do das damianitas. Ambos traduziram em formas concretas, cada um a seu modo e unidos por uma mesma espiritualidade, o novo anseio de vida evangélica.
Se posteriormente as duas Ordens foram se acomodando às formas tradicionais de vida religiosa, foi porque os seguidores e seguidoras de Francisco e Clara não conseguiram fazer prevalecer o caráter de novidade. A tentação do caminho mais fácil – isto é, de adaptar-se ao já existente, ao tradicional, ao modo antigo, experimentado com certo sucesso durante séculos – sempre existiu e permanece nos dias de hoje.

(1) Rotzetter A., Clara de Assis, a primeira mulher franciscana, Petrópolis, Vozes-Cefepal, 1994, p. 162.
(2) Rotzetter A., Clara de Assis…, p. 90.
(3) Cf. Rotzetter A., Clara de Assis…, p. 255-256; estas mulheres itinerantes se tornam conhecidas sob diversos nomes:discalceatae, chordulariae, minoretae, sorores minores, sorores fratrum minorum; foram proibidas pelo papa por desacreditarem os frades menores e a Ordem se São Damião.
(4) Fontes Franciscanas e Clarianas (= FFC), Petrópolis, Vozes-FFB, 2004, p. 1422-1423.
(5) A respeito da fundação dos primeiros mosteiros das Senhoras Pobres de São Damião, cf. Benvenuti A., La fortuna del movimento damianita in Italia (séc. XIII): propositi per un censimento da fare, em Chiara di Assisi, Atti del XX Convegno Internazionale – Assisi, 15-17 ottobre 1992, 57-106.
(6) Cf. FFC, p. 1433-1434.
(7) Cf. a respeito do movimento religioso feminino o bom trabalho de Brunelli D., Ele se fez caminho e espelho. O seguimento de Jesus Cristo em Clara de Assis, Petrópolis, Vozes-FFB, 1998, especialmente p. 43-63.
(8) A respeito da fama pública, cf. Teixeira C.M., “Francisco de Assis: o homem e seu mundo”, em Moreira A.S. (org.), São Francisco e as Fontes Franciscanas, Bragança Paulista, Editora Universitária São Francisco, 2007, 13-50, p. 20.
(9) Cf. Rotzetter A., Clara de Assis…, p. 77.
(10) Cf. Bartoli M., Clara de Assis, Roma, Istituto Storico dei Cappuccini, 1989, p. 70.
(11) Bartoli M., Clara de Assis, p. 80.
(12) Bartoli M., Clara de Assis, p. 92; cf. Benvenuti A., La fortuna del movimento…, p. 66.
(13) Bartoli M., Clara de Assis, p. 70.
(14) Bartoli M., Clara de Assis, p. 91-92.
(15) Bartoli M., Clara de Assis, p. 92.
(16) Cf. Bartoli M., Clara de Assis, p. 93-94.
(17) Bartoli M., Clara de Assis, p. 101.
(18) Cf. Rotzetter A., Clara de Assis…, p. 91.
(19) Cf. Bártoli M., Clara de Assis…, p. 104.
(20) Cf. Bartoli M., Clara de Assis, p. 104.
(21) Cf. Rotzetter A., Clara de Assis…, p. 92; 93; 94.
(22) Dinzelbacher P., Movimento religioso femminile e santità mistica nello specchio della “Legenda santae Clarae”, em Chiara di Assisi, Atti del XX Convegno Internazionale – Assisi, 15-17 ottobre 1992, 3-31, p. 9-10.
(23) Cf. Pedroso J.C., Fontes Clarianas, Piracicaba, Centro Franciscano de Espiritualidade, 2004, p. 32, nota 36.
(24) Bartoli M., Clara de Assis, p. 108.
(25) Cf. Chronica de Nicolau Glassberger (AF II, Quaracchi, 1887, p. 57), citada por Bartoli M., Clara de Assis, p. 108, nota 68.
(26) Cf. Bartoli M., Clara de Assis, p. 101.
*Frei Celso Márcio Teixeira é da Ordem dos Frades Menores, doutor em Espiritualidade.

http://www.itf.org.br/clara-de-assis-entre-o-claustro-e-a-itinerancia-2.html em 21/05/15 às 10h40m.

Sobre Juventude Franciscana JUFRA) do Brasil

A Juventude Franciscana (JUFRA) é uma proposta de vivência cristã destinada a jovens que, por vocação, carisma ou índole, se comprometem com o ideal de vida inspirado na espiritualidade franciscana A JUFRA é, ou deve ser, um monte de gente nesse mundão a fora, que tomou consciência de que: primeiro, deve esforçar-se para melhorar o mundo; segundo, que a melhora do mundo começa a partir de si mesmo; e que é preciso no mundo uma escola que ajude as pessoas a tomarem consciência disso. (Essa escola é a própria JUFRA) A JUFRA tem estilo e características próprias. Por isso nessa fraternidade de jovens, os jufristas assumem todos os deveres e, por conseguinte, gozam de todos os direitos inerentes ao compromisso franciscano de vida secular Segundo o Estatuto da JUFRA do Brasil, ela é uma associação civil com caráter e objetivos dentro exclusivamente dos campos Religioso, Educacional e Social.

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