No seu Testamento, Francisco de Assis diz de um modo claro: “E fiz misericórdia com eles” (Test 2). Aqui se trata da sua imersão no mundo dos leprosos de seu tempo. Uma coisa é saber que existe sofrimento na realidade, outra coisa é ir trocar as ataduras purulentas dos que têm a carne podre, dar comida e banho e um abraço. O Ano Novo fez o belo rito de passagem chamado reveillon com fogos, festas e brindes. Mas a vida continua oferecendo os mesmos desafios. Fazer um Ano Novo significa mudar de lugar como Francisco de Assis mudou. Para ele, relacionamento é ir onde estão as pessoas. O novo vem de encontros e saber o que se passa no lado de lá, é preciso ir lá e fazer, há um abraço, um beijo e uma aproximação ainda não realizada.

Para Francisco de Assis, um grupo humano e sociedade ou é comunidade viva, modo de fazer fraternidade; é lugar de encontro e mudança, ou se vai ali para ser irmão e irmã ou se é apenas mais um entre muitos que se ignoram nas pressas do dia a dia. Viver o Ano Novo de modo franciscano é saber que cada dia as relações possibilitam fraternidade e devem fazer fraternidade.

O jeito franciscano vai para o Ano Novo com a força do Evangelho. Onde o Evangelho foi escrito e vivido? No empoeirado chão palestino. Fazer a Boa Nova valer curando os que precisavam de cura e fazendo Zaqueu descer do galho de seus corruptos privilégios para deixar que a ética entre em sua casa. É ir a casa do que explora e dizer: isto não é permitido, e fazer com ele uma refeição com pratos que alimentam não só a barriga, mas a consciência.

A atividade pastoral de Francisco foi sempre esta prática de ir amorosamente como cuidador, e bem direcionada aos camponeses, aos pobres, e aos frades mais emblemáticos em seus problemas. No Ano Novo franciscano, a pastoral tem que ter e sentir cheiro de suor e de ovelha. Sentir o estranho gosto do diferente. Fazer unidade com eles, de um modo muito especial, com os pobres e desfavorecidos da terra.

No Ano Novo, como Francisco de Assis, temos que ir à Criação e perceber que todo ser criado, toda a natureza é um projeto do Amor de Deus, onde tudo tem valor e significado. É preciso fazer lugar na mãe terra para não deixar a vida ser apenas usada, vendida, explorada e deteriorada.

No Ano Novo, temos que perceber onde está a fragilidade humana, onde estão os conflitos e os gritantes problemas. Arrumar um espaço para que a partir dali seja uma base de soluções. E se um imigrante, um cracudo, um transgênero bater a sua porta, você vai deixar entrar? A perfeita alegria é abrir portas no lugar do fechamento.

Que seja um Ano Novo de justiça; mais do que lei, a justiça é vontade de Deus. A maior justiça que deve ser feita é a discernimento neste ano de eleições. Política no Brasil não tem nada de novo; apenas um velho sistema de abusos e escândalos. Pergunte, antes de votar, se o seu voto está de acordo com a vontade de Deus e dos Profetas. Você não pode trair a história da salvação e nem o anúncio do Evangelho que quer instaurar um Novo Tempo. Francisco de Assis nos ensinou que mudar estruturas é mudar coração e mentalidade. É preciso fazer mudança com eles!

E que o Franciscanismo nunca perca o seu jeito de ser religioso, que também sempre foi um novo jeito social, denúncia e esperança, o bem da paz e gerador de irmandade. Feliz Ano Novo, fazendo com Francisco de Assis! Paz e Bem!

FREI VITORIO MAZZUCO

FONTE: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/2018/01/inspiracoes-franciscanas-para-um-novo.html